Podia ser apenas mais um pacato instrumentista de orquestra, mas Carlos Alves também gosta de explorar outros mundos. Acredita que a música pode ajudar a superar a crise, já fez teatro e é director artístico de um festival. Em Agosto grava um CD nos EUA e amanhã toca num concerto de homenagem a Benny Goodman em Paços de Brandão.
O exemplo do jazz
Apesar de se considerar um músico clássico, Carlos Alves tem grande admiração pelo jazz. "Os grandes músicos são aqueles que conseguem olhar para uma partitura e transformá-la. Também no repertório clássico tento fazer a música soar como se estivesse a ser improvisada. Por isso tenho a imagem dos instrumentistas de jazz como exemplo."Um dos acontecimentos marcantes da carreira de Carlos Alves foi a colaboração com o encenador Ricardo Pais e o desafio de musicar ao vivo peças como "Figurantes", de Jacinto Lucas Pires, e o "Don Juan" de Molière. "Ao Ricardo Pais devo muita desta minha formação polivalente. Ele deu-me um crescimento dentro do 'Don Juan' tão importante como o das personagens principais. Eu estava presente em todas as cenas, improvisando e sublinhando cada palavra. Foi extraordinário, mas também o maior desafio que tive até hoje em termos de espectáculo."Outra colaboração importante dos últimos tempos tem sido a parceria com o pianista Caio Pagano, com quem gravou um CD em conjunto com outros músicos de nível internacional: o violinista Daniel Rowland (antigo concertino da Orquestra Gulbenkian), a violoncelista Catherine Stinx e o pianista Paulo Álvarez. "Registámos os 'Contrastes' de Bartók e o 'Quarteto para o Fim do Tempo', de Messiaen, como um cartão de visita da ESART, pois todos somos docentes no curso superior de música dessa instituição", explica. "No lançamento do CD, num espectáculo encenado por Ricardo Pais no Mosteiro de São Bento da Vitória, o Caio Pagano convidou-me a fazer uma série de recitais com ele nos EUA e a dar uma 'master class' na Universidade do Arizona, onde ele é catedrático. A digressão foi em Janeiro e abriu outras portas, já que após uma apresentação na Katzin Hall, uma editora americana (Soundset-Recordings) quis gravar o programa do recital." O CD sera registado em Agosto e inclui as Sonatas de Brahms, Debussy e Poulenc e as Quatro Peças op. 5 de Berg."A Universidade do Arizona tem 66 mil alunos e o nível musical é muito alto mas não é muito diferente do que temos hoje em Portugal", diz o clarinetista. "As grandes instituições deviam prestar mais atenção aos músicos portugueses, pois nos últimos anos houve um grande salto qualitativo. Não tem havido o cuidado suficiente com a minha geração nem com as gerações posteriores." A qualidade dos jovens instrumentistas é também constatada por Carlos Alves no seu dia-a-dia como professor, uma actividade que considera um importante complemento do seu desenvolvimento artístico. "Tudo funciona em círculo. Ensino música, que é aquilo que eu também faço todos os dias com a ONP. A experiência com os grandes maestros e com os meus colegas faz-me aprender muitas coisas que aplico depois nas aulas, onde também aprendo muito com os meus alunos... Há um complemento geral de crescimento intelectual, artístico e humano. A vida é um espelho daquilo que fazemos dentro do palco no diálogo que é a música."
Cristina Fernandes -Ípsilon

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